Minha mãe está viva, mora comigo, melhor dizendo no quarto do fundo. Come bem, respira, ás vezes ri de alguma coisa na televisão. Mas faz três anos que ela não sabe meu nome. As vezes me chama de Cecilia. Cecilia é a irmã dela, que morreu tem uns 15 anos. E eu respondi e sempre respondo. Fiquei sendo Cecília por uns 20 minutos, porque é mais fácil do que ver o susto na cara dela quando eu insisto em dizer que sou a filha.
Eu perdi a minha mãe. Eu sei que perdi. Mas não tem enterro para isso. Ninguém me liga para saber como estou, se já estou melhor... pelo contrario, quando cruzo com a vizinha, ela diz "graças a Deus que ela ainda está com você! Aproveita cada dia!! Eu sorrio e agradeço. Porque o que eu vou dizer? Que eu sinto uma saudade insuportável de uma pessoa que está no quarto do fundo?
Eu não tenho como nomear isso pra ninguém. Se eu falo que estou de luto, me olham torto, porque ela não morreu. Se eu falo que estou cansada, viram cuidado, remédio, "você precisa se cuidar". Mas não é cansaço. É que eu enterro ela um pouquinho toda manhã, e desenterro à noite, e no dia seguinte de novo, e ninguém nunca vai me deixar acabar de enterrar, porque ela está viva e vai continuar viva, e eu vou continuar sentindo falta dela ao lado dela.
Às vezes eu acho que a doente sou eu.